Envelhecimento, Estimulação Cognitiva e Terapia de Reminiscência

2025-07-07

O envelhecimento populacional constitui um fenómeno global progressivo que acarreta desafios de ordem social, económica e de saúde (1,2,3). Em Portugal, a tendência é idêntica. Este processo natural, universal e irreversível envolve alterações fisiológicas, cognitivas e emocionais (5,6) resultantes de fatores biológicos, psicológicos e contextuais (7, 8).


No domínio cognitivo, destaca-se a redução do volume cerebral e a perda de neurotransmissores, sobretudo dopamina (9), refletindo-se no declínio de funções executivas, memória episódica, atenção e velocidade de processamento (10,11). Este declínio compromete a autonomia e a interação social (12,13). Contudo, evidências científicas confirmam que o cérebro mantém a neuroplasticidade ao longo da vida, possibilitando a recuperação ou compensação de funções deficitárias (14,15).


A depressão geriátrica é uma das principais causas de sofrimento emocional, associando-se a fragilidade, comorbilidade e risco acrescido de demência (16,17,18). Frequentemente subdiagnosticada (19), a depressão geriátrica, manifesta-se através de sintomas como anedonia, sentimentos de inutilidade e isolamento (20,21). A sintomatologia depressiva correlaciona-se negativamente com a autoestima (22) e impacta a qualidade de vida (23).


A autoestima, entendida como uma avaliação subjetiva e afetiva sobre si próprio (24,25, 26), é considerada determinante para o bem-estar e qualidade de vida na velhice (27,28). Níveis mais baixos de autoestima representam fator de risco para a depressão e o declínio cognitivo (29). Fatores como experiências traumáticas, género, cultura e eventos de vida contribuem para a sua variação (30,31).


A qualidade de vida, segundo definição consensual da OMS (32), implica a perceção subjetiva da posição na vida, que inclui saúde física e mental, integração social, ambiente e autonomia (33,34). A participação em atividades sociais e cognitivas, bem como o apoio social, são protetores fundamentais (35,36). Estratégias de saúde pública orientadas ao envelhecimento ativo contemplam atividade física, alimentação equilibrada e estimulação cognitiva (37).


Neste contexto, a estimulação cognitiva e a terapia da reminiscência surgem como intervenções não farmacológicas promissoras. A estimulação cognitiva, consiste na prática sistematizada de atividades que trabalham, memória, atenção, funções executivas e linguagem, promovendo a densidade sináptica e a neuroplasticidade (38,39). Programas estruturados demonstraram eficácia na melhoria do desempenho cognitivo, autonomia, bem-estar, e na redução da sintomatologia depressiva (40,41,42).

A terapia da reminiscência, formalizada por Butler (43), utiliza a evocação de memórias autobiográficas significativas com funções adaptativas e terapêuticas (44,45). Pode assumir modalidades diversas: reminiscência simples, revisão de vida ou terapia de revisão de vida (46). Nas intervenções em grupo, promove o vínculo social e a partilha de experiências, enquanto no formato individual permite abordagens mais personalizadas (47). A aplicação clínica tem mostrado efeitos positivos na autoestima, humor, cognição e qualidade de vida (48,49,50). Meta-análises confirmam melhorias significativas na sintomatologia depressiva e bem-estar psicológico, sobretudo em idosos com sintomatologia depressiva (51,52).


Referências (por ordem de aparecimento):

1 WHO, 1999; 2 WHO, 2011; 3 INE, 2014; 4 Pordata, 2023; 5 Camargo & Gonzaga, 2015; 6 Paúl, 2010; 7 OMS, 2015; 8 Lemaire, 2016; 9 Zanto & Gazzaley, 2019; 10 Irigaray et al., 2012; 11 Katzam & Terry, 1992; 12 Cristófori et al., 2019; 13 Pereira, 2019; 14 Acari?n & Malagelada, 2018; 15 Zanto & Gazzaley, 2019; 16 Bennett & Thomas, 2014; 17 Goméz-Soria et al., 2023; 18 Pietrzak et al., 2023; 19 Afonso & Bueno, 2009; 20 Park & Unützer, 2011; 21 Hegeman, 2012; 22 Bhattacharya et al., 2023; 23 Liu et al., 2023; 24 Coopersmith, 1981; 25 Rosenberg, 1986; 26 Leary et al., 1995; 27 Pyszczynski et al., 2004; 28 Paúl, 2010; 29 Grimaud et al., 2021; 30 Murk, 2006; 31 Metad, 2004; 32 The WHOQOL Group, 1995; 33 Laidlaw et al., 2003; 34 Vilar et al., 2014; 35 Adams et al., 2016; 36 Prati, 2022; 37 WHO, 2019; 38 Zanto & Gazzaley, 2019; 39 Parola et al., 2019; 40 Irigaray et al., 2011; 41 Woods et al., 2012; 42 Parola et al., 2019; 43 Butler, 1963; 44 Bluck & Alea, 2002; 45 Westerhof & Bohlmeijer, 2014; 46 Pinquart & Forstmeier, 2012; 47 Justo-Henriques et al., 2020; 48 Gil et al., 2018; 49 Cuevas et al., 2020; 50 Shin et al., 2023; 51 Dinius et al., 2023; 52 Lodha & Sousa, 2023; 53 Guna et al., 2022; 54 Plexa et al., 2020; 55 Tam et al., 2021; 56 Justo-Henriques et al., 2019; 57 Gil et al., 2018; 58 Wu et al., 2023; 59 Xu et al., 2023; 60 Declaração de Helsínquia, 2013; 61 Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2016.

 
 
 

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